Verificado

O assassinato de Douglas Rafael é o retrato do nosso racismo

19:38 Apr 28 2014 Rio de Janeiro, Brasil

Descrição
A morte do jovem Douglas Rafael da Silva Pereira, de 26 anos, no Morro do Cantagalo, no Rio de Janeiro, é só mais um capítulo da cotidianidade de um país que vive um regime de segregação racial claro. Claro, mas não declarado.

DG, como era conhecido, ainda teve um diferencial, pois mesmo que timidamente, teve por vezes o seu rosto, ainda vivo, estampado, alegre e risonho, na tela da empresa de mídia mais poderosa do país, a Globo, enquanto dançava no Programa Esquenta, da apresentadora Regina Casé. Isso trouxe interesse sobre a sua morte, claro, e também pelo levante insurgente, dos pobres, em sua maioria negros, contra os abusos de uma ocupação militar que totalitariza suas vidas dia após dia.

O fato que nos separa da realidade de outros países que vivenciaram a segregação de forma declarada, como na região sul dos Estados Unidos, na África do Sul e no Zimbábue, também do Apartheid, é que o nosso racismo está e sempre esteve – exceto na época da escravidão -, dentro do armário. E isso não ajuda, só piora a situação.

O Brasil tem, em suma, uma sociedade enrustida. Tem uma grande parcela da sociedade legitimando e dando o álibi para um sistema de segregação perverso, que extermina negros e pardos nos confins marginais – periferias não-estado -, que margeiam ilhas de prosperidade, cercadas por muros, tal qual cidades medievais, protegendo-se dos “bárbaros”.

O cenário não é muito diferente da África do Sul e do Zimbábue, antiga Rodésia, quando sob o regime do Apartheid. Uma grande massa humana, negra, vivendo em condições paupérrimas no ostracismo de grandes periferias, em contraponto às ilhas de prosperidade, verdejantes e lindos subúrbios, repleto de uma minoria branca, vivendo com a qualidade de vida de um país escandinavo, mas sempre com medo.

O termo marginal significa “aquilo que está às margens de alguma coisa”. E quem são os marginais de que tanto temos medo? Pessoas que agem à margem da lei, em sua maioria pobres. Em sua maioria negros. Mas há uma ação que precede a marginalização desses indivíduos à lei. É a marginalização do Estado contra suas pessoas, contra os seus lares. Não, eles não estão à margem do Estado, pois isso configuraria opção. O Estado é que está e sempre esteve à margem deles.

Então, quando um “justiceiro”, mesmo que seja de boca – e isso tem o mesmo poder, pois é álibi para a barbárie -, chama essas pessoas de marginais, ele está certo, mesmo que ingenuamente, pois, antes de tudo, são pessoas que nasceram marginalizadas pelo Estado e pelo capital, ontem e sempre.

E quando o Estado decide, claro, por interesses econômicos de conluio com grandes empresas privadas, por conta da Copa do Mundo e das Olimpíadas, estar presente nesses guetos – Sowetos brasileiros -, ele, o Estado, chega na sua forma mais opressora e totalitária. Chega na forma de quase uma ditadura, uma ocupação militar (as UPPs) que não vê gente do outro lado, apenas naturais suspeitos. Suspeitos que tem fenótipo claro: negros e pardos.

Qual o maior grupo étnico abarrotado em nossas prisões superlotadas? Negros! Qual os maiores grupos étnicos confinados à margem do mundo, vivendo em condições subsaarianas? Negros e pardos! Sim, nós temos um sistema de Apartheid, mas que não se declara, pois ele tem vergonha de si mesmo.

Dúvidas? Vamos lá, a conta é muito simples: se a maior parte dos negros são pobres e miseráveis e desafiam a lei da física ao dizer que sim, dois corpos ocupam o mesmo lugar no espaço – nesse caso, nossas cadeias-escolas do crime -, só existem duas possibilidades. 1ª) O Brasil é um país que historicamente não só deixou de resolver o problema da marginalização dos negros, desde o fim da escravidão, como perpetuou essa realidade criminosa de desigualdades, o que se torna mola propulsora para a criminalidade. 2ª) Os negros seriam naturalmente menos capacitados, seriam preguiçosos e teriam uma tendência natural para o crime.

A não ser que você seja um neonazista declarado, você vai discordar, ao menos publicamente, da segunda opção. Mas, se você descarta essa segunda opção, você automaticamente concorda com a primeira. E se você concorda com a primeira, você entende que vivemos um sistema de segregação racial não declarado, na forma de um sistema de segregação sócio-econômico, e portanto que esses “marginais” também são vítimas.

Se você entender isso, a tendência é que, a partir desse momento, você olhe os nossos problemas diuturnamente de forma mais cautelosa e questionadora. Enfim, mais humana. Mas se negas isso, você é, sim, um racista, mesmo que não declarado, pois designa o entendimento de um comportamento criminoso proveniente de uma determinada etnia. E se é, seria mais digno que o fosse de forma declarada. Saia do armário! Apesar de difícil de entender, é ainda assim mais respeitável do que a covardia que dá carta branca para que os policiais – enquanto capitães do mato -, exterminem essas pessoas por você.

Quantas ações policiais arbitrárias, como as cotidianas nas favelas e periferias, você vê acontecendo no seu bairro de classe média ou classe alta? Você, branco, em suas ruas higienizadas, quantas vezes viu um semelhante branco e de classe média ser vítima de truculência policial? Quantas vezes você viu um helicóptero metralhar a sua rua, sem ligar se as balas pudessem atingir o seu lar, a sua família? Quantas vezes sua aparência impôs um julgamento apressado do outro lado e fosses seguido numa loja, revistado e espancado por policiais ou “justiceiros”?

Apesar de ações afirmativas e importantes como as cotas para universidades, assim como agora para concursos públicos, é preciso que mudemos como um todo. O cenário ideal, obviamente, teria um alto e humano investimento em educação básica de qualidade, para que antes de tudo possamos formar cidadãos e não só profissionais competitivos. Entender que tudo isso também é culpa nossa é fundamental. Mudemos, então, para que não mais existam Douglas e Amarildos assassinados.

Principalmente os anônimos, que não saem nos jornais.
Credibilidade: UP DOWN 0
Deixar um comentário
Nome:
Email:
Comentário:
Código de segurança:
14 + 3 =

Relatórios Adicionais

FEIRA DE SAÚDE PARA MOBILIZAÇÃO DA POPULAÇÃO NEGRA

02:08 Oct 12, 2014

Campinas, RMC, São Paulo, Região Sudeste, Brasil, 430.33 Kms

Polícia erra e mata refém de sequestro relâmpago, em São Paulo

19:26 Apr 24, 2014

São Paulo, Brasil, 435.91 Kms

Outras Alynes: Grávida morre após ter alta de hospital em Ribeirão Preto

20:24 Mar 30, 2014

Ribeirão Preto, São Paulo, Brasil, 567.36 Kms

Testando Michely

10:25 Aug 20, 2014

Curitiba, 682.45 Kms

MS pede apuração de casos de grávidas que deram à luz na calçada

20:28 Apr 22, 2014

Distrito Federal, Brasilia, Brasil, 914.38 Kms